Um marco da fé e da história de São Paulo, a Capela de Nossa Senhora das Almas dos Aflitos, considerada uma das edificações religiosas mais antigas da metrópole, reabrirá suas portas neste sábado, 27 de junho. Localizada no vibrante bairro da Liberdade, na região central da capital paulista, a capela carrega consigo um passado profundo, que remonta ao primeiro cemitério a céu aberto da cidade, destinado a pessoas escravizadas, indígenas, indigentes e condenados à morte no antigo Largo da Forca em 1779. Esta reabertura não celebra apenas um restauro, mas também o resgate de memórias essenciais para a compreensão da formação de São Paulo.
Um Passado Revelado: A Capela e o Cemitério dos Aflitos
O Santuário de Memórias Esquecidas
A Capela dos Aflitos transcende sua função religiosa para se tornar um portal para o passado. Originalmente, ela integrava o Cemitério dos Aflitos, que serviu como local de sepultamento para as vítimas da Forca, pessoas marginalizadas e comunidades historicamente oprimidas desde meados do século XVIII. Suas terras abrigaram os restos mortais de africanos escravizados, seus descendentes e povos indígenas, cujas vidas foram brutalmente encerradas no Campo da Forca – hoje a movimentada Praça da Liberdade.
Renascimento e Acessibilidade: A Restauração Milionária
Após um investimento superior a R$3,2 milhões, a capela passou por um meticuloso processo de restauração que garantiu sua modernização, acessibilidade e preservação. O projeto, liderado por profissionais especializados, contemplou diversas melhorias: a iluminação foi otimizada, a fachada refeita, o velário reconstruído e os maciços em taipa de pilão, que sofriam de erosão severa, foram consolidados. Além disso, os bancos e o telhado foram restaurados, e um espaço especial foi criado para o sepultamento digno dos remanescentes humanos encontrados durante as pesquisas arqueológicas. Para completar, um relógio, perdido na década de 1950, será reinstalado, e a capela agora oferece acessibilidade plena, com mapas e pisos táteis, recursos em áudio e Libras.
Descobertas Arqueológicas: Ossadas que Contam Histórias
A revitalização do espaço foi profundamente enriquecida por surpreendentes descobertas arqueológicas. Escavações revelaram os restos mortais de várias pessoas, confirmando o uso histórico da área como parte do Cemitério dos Aflitos, ativo até meados do século XIX. Essas ossadas são mais do que vestígios; elas são testemunhas silenciosas de uma parte dolorosa da história paulistana, fornecendo evidências concretas sobre a vida e a morte de populações marginalizadas, cujos corpos, se não mutilados, encontravam repouso nas imediações da capela.
Esforços Conjuntos e Financiamento da Preservação
O sucesso da restauração é fruto de uma colaboração entre diversas entidades. Em 2024, o projeto recebeu um aporte significativo de R$ 2 milhões através do edital Proac, da Secretaria de Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo de São Paulo e do Ministério da Cultura, com a Carollo Arquitetura e Restauro à frente da obra, em parceria com a Unamca. Adicionalmente, a Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa, liberou R$1,2 milhão à Mitra Arquidiocesana de São Paulo, proprietária e administradora da capela, demonstrando um compromisso coletivo com a preservação deste patrimônio.
A União dos Amigos da Capela dos Aflitos (Unamca)
O dia 27 de junho também marca o aniversário da União dos Amigos Capela dos Aflitos (Unamca), uma organização nascida em 2018 com a missão de zelar pelo local e sua rica história. Segundo Totó Parente, Secretário Municipal de Cultura e Economia Criativa, a reforma era um desejo antigo dos moradores, especialmente da comunidade negra, que agora vê um espaço ser entregue à cidade para contar parte de sua história no bairro da Liberdade. A Unamca foi fundamental na requisição de recursos e na zeladoria, especialmente após a construção de um prédio vizinho em 2018 causar danos estruturais à capela, resultando na interrupção da obra e no início de um novo ciclo de ressignificação para a área.
O Futuro: Memorial e Consciência Histórica
Múltiplas Transformações ao Longo dos Séculos
A Capela dos Aflitos passou por inúmeras intervenções ao longo de sua existência. Inaugurada em 1779 com dimensões menores, foi expandida posteriormente e sofreu grandes reformas em 1890 e 1960. Em 1994, um incêndio, possivelmente de origem elétrica, exigiu novos reparos, que só agora, décadas depois, foram concluídos de forma integral. Sua trajetória é um testemunho da resiliência e da importância que o local sempre representou para a comunidade.
Preservando a Memória com o Memorial dos Aflitos
Olhando para o futuro, a capela abrigará o Memorial dos Aflitos, um espaço dedicado à preservação e difusão da história do bairro e das pessoas que por ali passaram. Além disso, em novembro, mês da Consciência Negra, está programado o lançamento de um livro que documentará as escavações arqueológicas e abordará a educação patrimonial, consolidando a Capela dos Aflitos como um centro vital para o estudo e a reflexão sobre as raízes de São Paulo.
A reabertura da Capela de Nossa Senhora das Almas dos Aflitos é mais do que a entrega de um prédio restaurado; é a reafirmação de um compromisso com a memória, a justiça social e a construção de uma narrativa mais completa e inclusiva sobre a história de São Paulo. Este espaço sagrado, que outrora foi o último repouso para os marginalizados, emerge agora como um farol de conhecimento e um ponto de encontro para a reflexão sobre o passado e a construção de um futuro mais consciente.
Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br





