A indústria de carne bovina nos Estados Unidos enfrenta um período de intensa turbulência. A combinação desafiadora de um rebanho bovino em declínio e a consequente escalada nos preços da carne está forçando grandes frigoríficos a reavaliar suas operações, resultando em fechamentos de unidades e ajustes significativos em todo o país. Essa situação aponta para um cenário complexo, com impactos profundos na cadeia de produção e no bolso do consumidor americano.
Impacto Direto nas Indústrias Frigoríficas
A escassez de animais prontos para abate, aliada à elevação dos custos da matéria-prima, gerou uma onda de reestruturações no setor. Diversas empresas gigantes do processamento de carne foram obrigadas a tomar medidas drásticas, incluindo o encerramento de fábricas e a redução da capacidade produtiva, para se adaptar à nova realidade do mercado.
Grandes Nomes do Setor Reagem à Crise
A <b>JBS USA</b>, por exemplo, encerrou as atividades de sua unidade de processamento de carne bovina em Souderton, Pensilvânia, em junho de 2026, que possuía capacidade para abater cerca de duas mil cabeças de gado diariamente. No mesmo período, a empresa também fechou uma fábrica em Memphis, Tennessee, focada em alimentos processados, afetando aproximadamente 200 empregos. Anteriormente, em 2025, a Swift Beef Company, em Riverside, Califórnia, dedicada à preparação e embalagem de carne para supermercados, já havia sido fechada, com impacto em 374 postos de trabalho.
A <b>Tyson Foods</b> também sentiu o impacto. Em janeiro de 2026, a companhia anunciou o fechamento de seu frigorífico bovino em Lexington, Nebraska, uma planta com capacidade impressionante para processar cerca de cinco mil bovinos por dia, representando quase 5% de todo o abate diário nos EUA. Adicionalmente, as operações na unidade de Amarillo, Texas, foram reduzidas para apenas um turno, afetando aproximadamente 1.700 funcionários. Outra gigante, a <b>Cargill</b>, fechou em maio de 2026 uma unidade de carne moída em Milwaukee, Wisconsin, impactando 221 trabalhadores e reforçando a tendência de ajuste do setor diante da menor disponibilidade de gado.
Somente os fechamentos das plantas da JBS em Souderton e da Tyson em Lexington retiraram do mercado uma capacidade de processamento combinada de aproximadamente sete mil cabeças de bovinos por dia. Considerando que os EUA abatem entre 120 mil e 125 mil bovinos diariamente, essa redução representa uma diminuição de 5% a 6% na capacidade nacional de processamento de carne bovina, evidenciando a gravidade do cenário.
Rebanho Bovino Americano em Níveis Históricos
A principal causa dessa crise reside na drástica redução do rebanho bovino nos Estados Unidos. Dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) revelaram que o total de bovinos e bezerros no início de janeiro de 2026 era de 86,2 milhões de cabeças. Embora a queda anual tenha sido de apenas 0,3% em relação ao ano anterior (86,5 milhões), este número marca o menor estoque bovino norte-americano em 75 anos.
Causas da Redução e Perspectivas de Recuperação
A situação é ainda mais preocupante ao analisar o rebanho de vacas de corte, essencial para a produção de bezerros. Ele caiu para 27,6 milhões de cabeças, um recuo de 1% e o menor nível desde o início da década de 1950. A estimativa do total de bezerros também aponta para uma queda de 2%, atingindo 32,9 milhões, o menor volume registrado desde 1941. Essa redução expressiva é reflexo de fatores como anos consecutivos de secas severas em regiões pecuárias cruciais, os altos custos da alimentação animal e a necessidade de pecuaristas liquidarem matrizes durante os períodos mais críticos da crise climática.
Apesar de alguns indicadores sugerirem um início de recomposição do rebanho, analistas preveem que a recuperação será um processo lento e gradual, podendo se estender por vários ciclos de produção. Isso significa que os desafios atuais provavelmente persistirão por um período considerável.
Preços da Carne Bovina Disparam
A escassez de gado no mercado tem uma consequência direta e inevitável: o aumento do custo da matéria-prima para a indústria frigorífica. Essa pressão de custos é repassada, em parte, ao consumidor final, gerando inflação nos preços da carne bovina.
Custos Recordes para a Indústria
As projeções do USDA indicam que o preço médio do boi terminado para abate, conhecido como 'fed steer', deve atingir o valor recorde de <b>US$ 235,75 por 100 libras de peso vivo</b> em 2026. Este avanço é notável quando comparado aos anos anteriores: em 2025, o preço médio foi de US$ 213 por 100 libras, representando um aumento de aproximadamente 10,7% em apenas um ano. Comparado à média de 2024, estimada em cerca de US$ 187 por 100 libras, a valorização acumulada chega a cerca de 26% em dois anos. Na prática, a aquisição de um animal pronto para abate, de aproximadamente 635 quilos (1.400 libras), está significativamente mais cara para os frigoríficos.
A crise na oferta de gado nos EUA é um desafio multifacetado, com raízes em condições climáticas adversas e implicações econômicas profundas. Os fechamentos de frigoríficos e a disparada nos preços da carne bovina não são apenas indicadores de um mercado em transformação, mas também um sinal de alerta sobre a resiliência da cadeia de suprimentos de alimentos. A recuperação do rebanho será crucial para estabilizar o setor, mas o caminho adiante promete ser longo e exigir adaptação contínua de todos os elos da produção.
Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br






