A longevidade de atletas como <b>Cristiano Ronaldo</b>, que aos 41 anos ainda impressiona com seu condicionamento, é um testemunho da intensa evolução física no futebol moderno. Mas a que ponto essa transformação alterou o esporte? Uma análise de dois momentos históricos em Copas do Mundo nos dá uma dimensão clara dessa mudança radical no corpo dos jogadores de elite.
Do Golaço Clássico à Velocidade da Luz: O Ritmo Acelerado do Futebol
Em 1970, na Copa do México, o icônico quarto gol da Seleção Brasileira contra a Itália, finalizado por <b>Carlos Alberto Torres</b>, levou mais de 30 segundos e envolveu oito atletas em uma construção magistral. Cinco décadas depois, na final de 2022, a Argentina replicou uma jogada similar, culminando no gol de <b>Ángel Di María</b>, porém em meros 12 segundos. Essa diferença não é coincidência. Segundo <b>Orlando Laitano</b>, especialista em fisiologia do exercício da Universidade da Flórida, a seleção de 1970, se transportada para os dias atuais, seria interceptada. O desequilíbrio não estaria no talento, mas na fisiologia. O futebol se tornou uma "batalha por cada centímetro", exigindo jogadores mais rápidos e fortes.
A Metamorfose do Atleta: Mais Altos, Mais Magros, Mais Eficientes
Dados de pesquisas da Universidade de Wolverhampton, no Reino Unido, que analisaram milhares de jogadores da primeira divisão inglesa entre 1970 e 2020, revelam uma tendência clara: os atletas de ponta estão se tornando mais altos e magros. A altura média aumentou em mais de 4 cm entre 1973 e 2013, e a tendência de se tornarem mais "angulares e ectomorfos" – ou seja, com estrutura leve e membros longos – continua, especialmente entre goleiros e defensores. O <b>Recíproco do Índice Ponderal (RIP)</b>, que avalia a altura em relação ao peso, comprova essa busca pela magreza.
Campos Modernos e Carga de Trabalho Aumentada Moldam o Novo Biótipo
Essa mudança no biótipo é impulsionada, em parte, pela melhoria das condições de jogo. Nos anos 70, gramados enlameados exigiam jogadores musculosos. Hoje, com campos impecáveis, atletas mais leves e esguios conseguem manter um alto nível de performance por períodos estendidos, otimizando sua energia para o componente mais crucial do jogo moderno: a corrida.
Corrida Contra o Tempo: O Gasto Energético Elevado do Futebol Atual
A velocidade atingida pelos jogadores também se intensificou dramaticamente. Se nos anos 70 e 80 raramente se ultrapassavam os 30 km/h, na Copa do Mundo de 2022, mais de dez atletas superaram os 35 km/h. O fisiologista <b>Jens Bangsbo</b>, da Universidade de Copenhague, explica que o cenário dos atacantes do século passado, que podiam “caminhar” na maior parte do jogo antes de uma arrancada pontual, simplesmente não existe mais. Os jogadores precisam atingir e sustentar velocidades máximas com muito mais frequência durante uma partida inteira.
A Intensidade Implacável Posiciona a Corrida no Centro do Jogo
Na Eurocopa de 2024, a UEFA registrou que jogadores corriam a 25 km/h ou mais cerca de 12 vezes por jogo. Essa demanda varia conforme a posição: zagueiros e meio-campistas efetuaram, em média, oito arrancadas de alta velocidade, enquanto atacantes faziam 12 e laterais, impressionantes 14 por partida. Correr rápido, e com constância, é a essência do sucesso no futebol contemporâneo.
Em suma, a evolução do futebol é um reflexo direto da ciência, da medicina esportiva e de um novo modelo de jogo. Os craques de hoje não são apenas mais talentosos; eles são produtos de uma rigorosa adaptação fisiológica, moldados para serem mais altos, mais magros, mais rápidos e incrivelmente resistentes. Para brilhar no cenário atual, o talento precisa ser indissociável de um corpo em sua condição física mais otimizada.
Fonte: https://g1.globo.com






