Enquanto os olhos do mundo se voltam para a Copa do Mundo de 2026, onde o Japão se prepara para enfrentar a seleção brasileira após empatar com a Suécia na fase de grupos, há um outro campo onde a nação asiática joga uma partida ainda mais intrigante: sua economia. Quarta maior do planeta e um polo inquestionável de inovação e tecnologia de ponta, o Japão é, paradoxalmente, um dos casos mais fascinantes e estudados da economia global, lidando há décadas com um crescimento modesto e desafios estruturais profundos que limitam uma expansão mais acelerada.
A Trajetória de um Enigma Econômico
O Fenômeno da 'Japanificação'
Conforme explica Jacob Funk Kirkegaard, pesquisador do Peterson Institute for International Economics (PIIE), este cenário começou a tomar forma após o estouro das bolhas imobiliária e do mercado de ações entre meados dos anos 1980 e o início dos anos 1990. A partir dali, o Japão mergulhou em um período de baixo crescimento e inflação muito baixa, por vezes, experimentando até mesmo a deflação, uma queda generalizada dos preços. Esse conjunto de fatores, que perdurou por mais de três décadas, ficou conhecido entre economistas como 'Japanificação', um termo que descreve economias que convivem por longos períodos com crescimento fraco, inflação persistentemente baixa e dificuldade para recuperar o dinamismo.
Paralelamente, o país enfrentava uma transformação demográfica drástica. A baixa taxa de natalidade, o envelhecimento acelerado da população e a consequente redução da força de trabalho ativa começaram a exercer forte pressão sobre o mercado de trabalho e as contas públicas, agravando o cenário econômico e contribuindo para a manutenção do ciclo de crescimento modesto.
Sinais de Mudança e a Nova Perspectiva
Recentemente, parte desse quadro desafiador começou a mudar. A inflação no Japão voltou a se aproximar da meta estabelecida pelo Banco do Japão (BoJ), permitindo que a autoridade monetária abandonasse sua política de juros negativos. Atualmente, a taxa básica de juros situa-se em 1% ao ano. Segundo Kirkegaard, essa é uma notícia promissora: "Pela primeira vez, desde que o envelhecimento populacional se acelerou no início dos anos 1990, o Japão pode ter um caminho plausível para desenvolver pressões sustentadas de salários e preços impulsionadas internamente".
O Quebra-Cabeça da Economia Japonesa
Inovação e Produtividade vs. Crescimento Lento
Apesar da melhora recente, a economia japonesa mantém características singulares que a tornam um verdadeiro "quebra-cabeça econômico", como definem pesquisadores da Universidade Harvard. O país ostenta uma das menores taxas de desemprego do mundo, alcançando 2,5% em abril, e um PIB per capita estimado em cerca de US$ 35,7 mil pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Além disso, o Japão se mantém entre as economias mais inovadoras do planeta, ocupando a 12ª posição no Global Innovation Index 2025 e liderando em indicadores de sofisticação industrial e colaboração entre universidades e empresas. Em 2023, destinou expressivos 3,44% do seu Produto Interno Bruto (PIB) – cerca de US$ 145 bilhões – para pesquisa e desenvolvimento. Contudo, mesmo com todo esse potencial, sua economia cresce, em média, apenas 1% ao ano há aproximadamente três décadas. Curiosamente, o Japão lidera o Índice de Complexidade Econômica desde 1981, evidenciando sua notável capacidade de produzir bens de alto valor agregado e direcionar seu conhecimento produtivo para além de suas fronteiras.
O Desafio Demográfico e a Dívida Pública
Uma peça central desse quebra-cabeça reside na profunda transformação demográfica do país. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) projeta que, em 2026, quase 30% dos japoneses terão mais de 65 anos, enquanto a taxa de fertilidade permanece próxima de 1,2 filho por mulher. Com menos pessoas em idade ativa para trabalhar, o potencial de crescimento econômico diminui drasticamente, e as pressões sobre os gastos públicos aumentam, especialmente em áreas cruciais como aposentadorias e saúde. A dívida pública japonesa é um reflexo direto desse desafio, com projeções do FMI indicando que ela permanecerá acima de 200% do PIB em 2026, uma das maiores proporções do mundo, resultado da opção do governo em financiar uma parcela crescente das despesas sociais por meio da emissão de dívida, em vez de um ajuste fiscal mais intenso ou de uma elevação significativa da carga tributária.
O Japão permanece, assim, como um estudo de caso singular. Sua resiliência em inovação e alta tecnologia, combinada com a complexidade de seus desafios demográficos e a estratégia de financiamento da dívida, cria um panorama econômico que continua a intrigar especialistas e moldar debates sobre o futuro de economias avançadas em todo o mundo. A capacidade japonesa de inovar e se adaptar, mesmo diante de um crescimento moderado, reafirma sua posição de vanguarda, mas também sublinha a persistência de um enigma que ainda busca sua solução definitiva.
Fonte: https://g1.globo.com






