As recentes sanções impostas pelos Estados Unidos a dois cidadãos brasileiros, acusados de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), levantaram um importante debate sobre a eficácia da cooperação internacional no combate ao crime organizado. Especialistas e membros do governo brasileiro sugerem que a atuação norte-americana poderia ter sido mais impactante caso a parceria técnica entre os dois países não tivesse passado por um período de distanciamento, ou 'esfriamento', como é denominado.
O Cenário das Sanções e a Justificativa dos EUA
No final de maio, o Departamento de Estado dos EUA anunciou a decisão de classificar o PCC e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, medida que entrou em vigor em junho. Essa classificação abriu caminho para ações mais rigorosas e unilaterais, incluindo a sanção de indivíduos e empresas. O governo americano justificou a medida alegando que a atuação dessas facções criminosas transcende as fronteiras brasileiras, alcançando outros países da região e até mesmo os Estados Unidos, utilizando o sistema financeiro americano para lavagem de dinheiro.
Os Alvos das Sanções e Suas Implicações
As sanções mais recentes, formalizadas pelo Departamento do Tesouro dos EUA, atingiram Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, além de três empresas brasileiras – Victory Trading Intermediação De Negócios Cobranças E Tecnologia Ltda, Pixwave Soluções De Pagamentos Ltda e Wave Construções Inteligentes Ltda – e uma portuguesa, Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda. Segundo as autoridades americanas, Victor Shimada era um elo crucial em uma rede internacional de lavagem de dinheiro do PCC, movimentando mais de 30 milhões de dólares em recursos ilícitos. Com as sanções, todos os bens dos alvos nos Estados Unidos ficam bloqueados, e empresas financeiras que mantenham relações com eles podem ser punidas.
O Declínio na Cooperação Bilateral e Suas Consequências
Assessores presidenciais brasileiros revelam que, anteriormente, a cooperação técnica com os EUA no combate ao crime organizado era considerada 'muito boa'. Contudo, esse intercâmbio esfriou durante a gestão Trump, mesmo antes da classificação do PCC e CV como grupos terroristas. A mudança de comando em departamentos-chave nos Estados Unidos, como o Departamento de Justiça, com a chegada de indivíduos alinhados a uma linha ideológica específica, é apontada como um dos catalisadores desse distanciamento.
A Perspectiva Brasileira e a Oportunidade Perdida
Um ponto de frustração para o governo brasileiro é a alegação de que não houve nenhum pedido de cooperação internacional antes da adoção das sanções contra o casal. Segundo um assessor presidencial, se tal solicitação tivesse sido feita, o Brasil poderia ter implementado medidas internas contra o esquema criminoso, como o bloqueio de contas, potencializando a eficácia da ação. A ausência de diálogo prévio levanta preocupações sobre a unilateralidade das ações americanas e seus possíveis impactos secundários, como a punição a bancos brasileiros com relações financeiras com os sancionados.
Rumo a um Futuro de Cooperação Fortalecida
Diante desse cenário, o governo brasileiro manifesta o desejo de reverter o 'esfriamento' e insiste na importância de intensificar a cooperação entre Brasil e Estados Unidos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já havia formalizado essa proposta em um encontro anterior com o ex-presidente Trump, buscando um engajamento contínuo e mais eficaz no combate ao crime organizado transnacional. A expectativa é que o diálogo seja retomado e fortalecido, em benefício da segurança de ambos os países.
Em suma, embora as sanções dos EUA contra indivíduos e empresas ligadas ao PCC sejam um passo importante, a análise brasileira sugere que a força máxima dessas medidas só seria alcançada através de uma colaboração técnica robusta e contínua. O fortalecimento dessa parceria não só otimizaria as ações conjuntas contra o crime, mas também minimizaria os riscos de impactos indesejados e garantiria uma resposta mais coordenada e eficiente diante de ameaças transnacionais.
Fonte: https://g1.globo.com






