Na última quarta-feira, uma série de fortes terremotos sacudiu o norte da Venezuela, causando devastação, com mais de 100 mortos e cerca de 1.500 feridos. Os abalos foram sentidos em diversos estados do Norte do Brasil, mas de maneira surpreendentemente distinta. Enquanto moradores de Roraima, na fronteira com o país vizinho, relataram apenas tremores leves, no Amazonas a situação foi mais intensa, com objetos balançando e edifícios sendo evacuados.
Essa disparidade na percepção dos tremores levanta uma questão crucial: por que estados tão próximos do epicentro sentiram o impacto de formas tão variadas? A resposta reside em uma combinação de fatores geológicos, estruturais e até mesmo comportamentais, conforme explicam especialistas em sismologia.
A Ciência Por Trás da Percepção Sísmica
A forma como percebemos um tremor de terra não depende apenas da sua magnitude ou da distância do epicentro. O pesquisador José Alexandre Nogueira, do Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP), destaca que a composição do solo, as características das construções e até o momento em que o evento ocorre são cruciais para a intensidade sentida. Esses elementos interagem para amplificar ou atenuar as ondas sísmicas ao atingirem a superfície.
A Influência Decisiva da Geologia Local
A geologia de uma região é um dos fatores mais importantes. Manaus, capital do Amazonas, está situada sobre a Bacia Sedimentar Amazônica, uma área caracterizada por espessas camadas de sedimentos como areia, argila e cascalho. Esse tipo de solo tem a particularidade de amplificar as ondas sísmicas, fazendo com que os tremores sejam sentidos com maior intensidade, mesmo a uma distância considerável do epicentro.
Roraima, por outro lado, apresenta uma formação geológica diferente. O estado está assentado sobre rochas cristalinas, que são mais antigas e densas. Essas rochas tendem a atenuar as ondas sísmicas. Por isso, apesar de estar fisicamente mais próximo da Venezuela do que Manaus, os efeitos dos terremotos foram menos intensos e perceptíveis em cidades roraimenses como Boa Vista e Pacaraima.
Construções e Urbanização: Como Elas Amplificam o Impacto
Além da composição do solo, a estrutura das edificações nas cidades também exerce forte influência. Manaus, por exemplo, possui uma concentração maior de prédios altos, que tendem a oscilar de forma mais acentuada durante a passagem das ondas sísmicas, tornando os abalos mais fáceis de serem percebidos pelos ocupantes. Quanto mais alto o andar, maior a sensação de movimento.
Em contraste, Boa Vista, a capital de Roraima, é caracterizada por construções predominantemente térreas. Edificações de menor altura e com estrutura mais robusta geralmente absorvem melhor a energia dos tremores, resultando em uma percepção reduzida dos abalos pela população.
O Horário do Evento e a Sensibilidade Humana
O momento em que os terremotos aconteceram também pode ter contribuído para a forma como foram percebidos. Os dois principais abalos ocorreram pouco depois das 19h (horário de Brasília). Nesse período, muitas pessoas estão em casa, em repouso, assistindo televisão ou engajadas em atividades mais calmas. A percepção de tremores tende a ser maior quando o corpo está parado e atento a pequenos movimentos.
Em horários de pico, com as pessoas se deslocando, no trânsito ou envolvidas em atividades mais dinâmicas, a chance de não perceber um tremor leve é consideravelmente maior. Essa particularidade do comportamento humano diante de estímulos sísmicos adiciona mais uma camada de complexidade à análise da percepção dos terremotos.
O Cenário dos Terremotos na Venezuela
Os eventos sísmicos que afetaram a Venezuela na noite daquela quarta-feira foram notáveis por sua intensidade e proximidade. Dois terremotos distintos, mas quase simultâneos, atingiram o norte do país, a poucos quilômetros de distância um do outro e com menos de um minuto de diferença. O tremor mais forte, com epicentro em El Guayabo, a cerca de 168 km de Caracas, foi classificado como um dos mais potentes a atingir a nação em mais de um século.
Além dos abalos principais, a região registrou ao menos 20 réplicas – tremores subsequentes de menor intensidade. Diante da gravidade da situação, que resultou em edifícios colapsados e um rastro de destruição, as autoridades venezuelanas decretaram estado de emergência, mobilizando equipes de resgate, segurança e defesa civil para as áreas mais afetadas.
Conclusão: Uma Teia de Fatores na Percepção Sísmica
A diferença na forma como os tremores da Venezuela foram sentidos no Norte do Brasil é um lembrete vívido de que a sismologia é uma ciência complexa. Não é apenas a distância do epicentro que importa, mas uma intrincada teia de fatores: a formação geológica do solo que pode amplificar ou atenuar as ondas, as características estruturais das edificações que determinam sua resposta aos abalos, e até mesmo as circunstâncias e o estado de repouso da população no momento do evento.
Compreender essa dinâmica é fundamental não apenas para decifrar eventos passados, mas também para orientar futuras estratégias de construção e planejamento urbano em regiões suscetíveis a atividades sísmicas, garantindo maior segurança e resiliência das comunidades.
Fonte: https://g1.globo.com






