Após quase cinco meses de intensas operações, as buscas pelos cinco indivíduos que desapareceram no trágico naufrágio de uma lancha no Encontro das Águas, em Manaus, foram oficialmente suspensas. A decisão, anunciada pelo Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) em julho, encerra uma fase de incertezas para as famílias, que agora enfrentam a dolorosa realidade do não encontro de seus entes queridos. O incidente, ocorrido em 13 de fevereiro deste ano, resultou em mortes, resgates e uma mobilização sem precedentes na região.
O Naufrágio Que Abalou o Amazonas
A embarcação envolvida, a lancha Lima de Abreu XV, da empresa Lima de Abreu Navegações, partiu de Manaus com destino a Nova Olinda do Norte. Por volta das 12h30, nas proximidades do icônico Encontro das Águas dos rios Negro e Solimões, a lancha afundou subitamente. O acidente foi devastador: três pessoas perderam a vida, 71 foram resgatadas com vida, mas cinco continuaram desaparecidas, dando início a uma complexa e exaustiva operação de busca.
Testemunhos e vídeos dos passageiros à deriva ilustraram o caos e o desespero. Muitas pessoas, incluindo crianças, foram vistas utilizando coletes salva-vidas ou se apoiando em botes improvisados, aguardando socorro. Um dos momentos mais comoventes foi o resgate de um bebê prematuro de apenas cinco dias, que havia sido colocado em um cooler por familiares para protegê-lo da água, até ser encontrado pelas equipes. Sua mãe também foi salva. Relatos indicaram que a lancha enfrentou o forte 'banzeiro' — ondas grandes e agitadas comuns na região — e que houve alertas ao piloto sobre a velocidade antes do incidente.
Uma Busca Contínua e a Difícil Decisão da Suspensão
Esforços e Recursos Empregados
As equipes do CBMAM iniciaram as buscas no mesmo dia do naufrágio, 13 de fevereiro, mantendo-as de forma contínua e diária até 19 de março, um período de 34 dias de trabalho ininterrupto. A partir de 20 de março, as operações passaram a ser realizadas de forma intermitente, duas vezes por semana, estendendo-se até 30 de junho. Durante todo esse tempo, foram utilizados drones, diversas embarcações e equipamentos de sonar para varrer o leito do rio, na esperança de encontrar qualquer vestígio. Familiares acompanharam de perto cada etapa desse doloroso processo. Embora as buscas ativas estejam suspensas devido ao esgotamento das possibilidades, o Corpo de Bombeiros mantém o estado de sobreaviso, indicando que qualquer nova pista pode levar à retomada das operações.
O Próximo Passo: A Morte Presumida
Com a suspensão das buscas, as famílias dos desaparecidos enfrentam agora um novo e burocrático desafio: o pedido de morte presumida. O CBMAM confirmou que parentes de três das vítimas já solicitaram o boletim de ocorrência da corporação, registrado no Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). Este documento é crucial, pois representa o primeiro passo legal para que possam entrar com o pedido judicial de morte presumida, procedimento necessário quando não há corpo, mas fortes evidências da fatalidade.
As Vítimas e a Busca por Justiça
Histórias Interrompidas Pela Tragédia
O naufrágio ceifou vidas e deixou um rastro de dor. Entre as vítimas fatais estavam Samila de Souza, uma menina de apenas 3 anos que retornava de sua primeira viagem a Manaus, cujo corpo foi encontrado horas após o acidente. Lara Bianca, uma jovem de 22 anos que cursava odontologia e estava prestes a se formar, também foi resgatada sem vida no dia da tragédia. Três dias após o ocorrido, o corpo do cantor gospel Fernando Grandêz, de 39 anos, conhecido por sua fé e participação em eventos religiosos, foi localizado, completando o número de vítimas encontradas.
O Piloto Responde por Homicídio Qualificado
Enquanto as famílias lamentam suas perdas e lidam com o processo de luto, a justiça avança. O piloto da lancha, Pedro José da Silva Gama, tornou-se réu por homicídio qualificado. Em 24 de abril, a Justiça do Amazonas aceitou a denúncia apresentada pelo Ministério Público do Estado do Amazonas (MPAM), indicando que as investigações preliminares apontam para uma possível responsabilidade criminal no desencadeamento do acidente.
O naufrágio da Lima de Abreu XV permanece uma ferida aberta para a comunidade amazonense. Com as buscas pelos desaparecidos suspensas e os trâmites legais em andamento, o caso segue como um sombrio lembrete da fragilidade da vida e da importância da segurança na navegação, enquanto famílias e autoridades buscam por justiça e por um encerramento, ainda que doloroso, para essa tragédia.
Fonte: https://g1.globo.com






