A violência contra a mulher assume diversas formas, mas um padrão alarmante tem sido destacado por especialistas: a frequência com que os ataques são direcionados ao rosto das vítimas. Em meio aos debates sobre os 20 anos da Lei Maria da Penha, que serão completados em 2026, pesquisadores apontam que essa escolha do alvo não é aleatória. Ela revela uma intenção profunda de ir além da agressão física, buscando destruir a identidade e a autoestima das mulheres de maneira cruel e desproporcional.
A Intenção Cruel Por Trás dos Ataques Faciais
As agressões focadas na face representam um tipo de violência que mira no que há de mais visível e identitário na pessoa. Não se trata apenas de causar dor ou lesão, mas de deixar marcas que desfigurem, humilhem e, em última instância, apaguem a essência da mulher. Essa força excessiva e desmedida, chamada por especialistas de 'overkill', demonstra a intenção de aniquilar a identidade da vítima, transformando-a em uma lembrança constante do trauma.
O Rosto como Símbolo de Identidade e Expressão
Estudos nas áreas da odontologia e medicina legal revelam que entre 70% e 90% das agressões físicas a mulheres têm o rosto como principal alvo. Essa preferência não é por acaso; o rosto é o centro da nossa expressão, comunicação e reconhecimento social. Para a psicologia, atingir essa área é uma 'pedagogia virilista', onde o agressor tenta 'ensinar uma lição' e 'danificar' a mulher, não apenas para si, mas para que 'ninguém mais a deseje', reforçando um controle machista e possessivo.
Quando a Violência Transcende o Relacionamento
A estudante Alana Anísio Rosa, de 20 anos, exemplifica como essa violência pode surgir de onde menos se espera. Sem qualquer vínculo ou relacionamento com o agressor, ela foi vítima de uma tentativa de homicídio dentro da própria casa. Após recusar investidas de um homem que a observava na academia, Alana foi brutalmente atacada com 30 golpes de faca no rosto e corpo. Sua sobrevivência, após semanas em coma, ressalta a gravidade e o caráter indiscriminado desses ataques, que desafiam a percepção de segurança no próprio lar.
As Marcas Invisíveis e Visíveis da Agressão
As cicatrizes deixadas por esses ataques vão muito além da superfície da pele. Elas se tornam lembretes diários e dolorosos do trauma, afetando profundamente a autoestima e a saúde mental das sobreviventes. A violência no rosto é, para muitas, uma violência perpétua, que as confronta com o ocorrido cada vez que se olham no espelho.
A Batalha por Justiça e Reabilitação
Os casos de Alana e de Samira Khouri, uma médica agredida com socos repetidos no rosto pelo então namorado, ilustram a intensidade dessa violência. Samira descreve a dificuldade de se reconhecer: 'essa não sou eu. Porque está muito torto. Não está normal.' Enquanto a defesa de Alana busca a tipificação do crime como tentativa de feminicídio, a luta pela justiça é um caminho longo e árduo. Paralelamente, a reabilitação das vítimas é crucial, com a cirurgia reparadora e a assistência especializada oferecidas por organizações como o Instituto Um Novo Olhar, que fornecem tratamentos gratuitos e suporte vital para a reconstrução física e emocional.
O Desafio da Subnotificação e a Busca por Apoio
A violência de gênero enfrenta um grave problema de subnotificação, dificultando a real dimensão do cenário. Uma pesquisa com usuárias do SUS na Grande São Paulo revelou que 76% delas sofreram violência (psicológica, física ou sexual), mas apenas 3,8% tiveram essa agressão registrada formalmente em seus prontuários. Essa lacuna entre a experiência vivida e o registro oficial impede que a maioria dos casos chegue ao sistema de Justiça. É fundamental que as mulheres encontrem caminhos para denunciar e recebam todo o apoio necessário, desde a acolhida psicológica até a reconstrução física, para que possam reaver suas vidas e identidades.
Os ataques direcionados ao rosto de mulheres são um grito silencioso sobre a brutalidade da violência de gênero. Eles evidenciam uma intenção de desumanizar e apagar a individualidade, deixando marcas profundas. Para combater essa realidade, é imprescindível aumentar a conscientização, fortalecer os mecanismos de denúncia, garantir o acesso à justiça e oferecer um suporte integral e humanizado às sobreviventes, assegurando que a reconstrução de suas vidas e identidades seja plena e respeitada.
Fonte: https://g1.globo.com






